Meditação

por Chris Pauling

Se a base ética da nossa vida afecta indirectamente o espírito, a meditação, o segundo aspecto da via budista, é um método que exerce uma influência mais directa sobre os nossos estados mentais. A meditação é uma maneira de trabalharmos sobre o espírito com o espírito, permitindo-nos aumentar o nível de consciência e a atitude positiva em geral, para depois usarmos esta consciência intensificada e apurada para olharmos para a natureza das coisas como elas são realmente.

Embora a palavra meditação se tenha tornado corrente no Ocidente, para a maior parte das pessoas continua a ser um conceito desconhecido. Por conseguinte não é de admirar que existam um certo número de ideias falsas sobre o assunto, nomeadamente que se trata de uma forma de relaxação; um estado de transe; uma deliciosa evasão da realidade; uma forma de auto hipnose; ou que consiste em fazer o vazio na mente. Não há dúvida que a meditação é um poderoso antídoto contra a tensão e que também pode ser bastante agradável, mas estes são efeitos secundários e não o verdadeiro objectivo. A meditação não é um transe nem um estado hipnótico ou vazio. É um estado de intensificação da consciência no qual elevamos o nosso nível de ser a altitudes desconhecidas e não uma maneira de cairmos num torpor semiconsciente.

Um outro erro comum acerca da natureza da meditação consiste em identificá-la com uma técnica específica. Um tradutor de textos budistas muito conceituado afirmou que existem mais de quatrocentas técnicas de meditação budistas. É óbvio que tomar uma destas técnicas pela meditação no sentido absoluto é uma visão particularmente limitada. A meditação é essencialmente um estado de consciência, ou melhor, uma série de estados conectados entre si, e não existe apenas uma maneira correcta de os atingir ou de trabalhar sobre eles, embora uma ou outra possa convir melhor a certas pessoas, ou ser mais apropriada a um certo nível de desenvolvimento espiritual.

Essas quatrocentas técnicas de meditação budista dividem-se em duas categorias em função do seu objectivo. Podem ser práticas de “samatha” – a palavra Pali significa mais ou menos “paz” ou “serenidade” – ou de “vipassana”, ou seja técnicas de “cognição”. Algumas técnicas contêm elementos de ambas.

A Meditação Samatha
A meditação samatha acalma o espírito e concentra a atenção; estimula os sentimentos positivos e alarga as nossas perspectivas. Este tipo de meditação é a preparação indispensável para as técnicas de vipassana, pois sem esta base a emergência do tipo de cognição, que a meditação tem por objectivo estimular, é quase impossível. O nosso estado de consciência habitual é demasiado disperso e dividido, obscurecido por emoções negativas, e as suas perspectivas são demasiado limitadas para que possamos ver a realidade como ela é.

O nosso grau de consciência habitual pode ser comparado à luz difusa de uma lanterna de má qualidade com as filhas fracas. Não ilumina quase nada na escuridão. O trabalho da meditação samatha é concentrar a luz num único foco e recarregar as pilhas para que possamos começar a ver melhor. Para usarmos uma analogia mais tradicional, diremos que o nosso estado mental habitual pode ser comparado a água turbulenta e enlameada, com demasiadas partículas em suspensão para deixar passar a luz. A meditação samatha acalma a turbulência do espírito e faz com que o lodo assente, de modo a que a água se torne transparente, luminosa e cristalina.

A maior parte das técnicas de meditação samatha utilizam um objecto de concentração que pode ser a própria respiração, um disco colorido, a chama de uma vela, um mantra ou uma emoção positiva como a bondade. Dos objectos citados a respiração é provavelmente o mais utilizado para concentrarmos a atenção. Esta prática – por vezes chamada a “respiração consciente” – foi descrita detalhadamente pelo Buda nos primeiros escritos budistas e é usada, sob diferentes formas, em praticamente todas as escolas do budismo. Uma outra prática de samatha bastante comum é o “desenvolvimento da bondade” para consigo mesmo e para com os outros, ou seja a utilização deste sentimento como objecto de meditação.

Estas duas técnicas meditativas oferecem-nos meios directos para trabalharmos sobre nós mesmos no sentido de cultivarmos duas qualidades essenciais ao desenvolvimento espiritual: a vigilância e as qualidades de coração.

A respiração consciente permite-nos desenvolver um nível de atenção vigilante que raramente conhecemos na nossa vida de todos os dias, e para algumas pessoas chega a ser quase uma revelação descobrirem que podem estar tão atentos. Se estivermos a tentar manter a vigilância como parte da nossa prática de ética, com o tempo, o tipo de atenção que desenvolvemos durante a meditação vai infiltrar-se nos nossos estados de espírito e trazer mais claridade e mais espaço à nossa vida, bem como uma liberdade nova para agirmos construtivamente.

A prática do “desenvolvimento da bondade” oferece-nos um meio para trabalharmos directamente sobre as emoções de modo a incrementarmos o sentido de dignidade interior e o afecto pelos outros. Muitos principiantes nesta prática ficam surpreendidos por sentirem emoções tão intensas e tão calorosas. E aqui também, se os efeitos da meditação forem reforçados pela prática da ética, este tipo de sentimentos rapidamente se infiltra na nossa vida de todos os dias, onde têm um efeito quase mágico nas nossas relações com os outros e, por extensão, na vida em geral.

Todas as técnicas de samatha têm por objectivo induzir um estado de “concentração num só ponto”, no qual todas as tendências do nosso ser se fundem numa consciência única, serena e luminosa. Se a nossa vida obedecer a uma ética, e se estivermos rodeados por condições que favoreçam o contentamento e as emoções positivas, à medida que meditamos, a tagarelice mental incessante do nosso espírito é progressivamente substituída por uma serenidade silenciosa e subtil. Os conflitos internos começam a dissolver-se os nossos lados nevróticos e obsessivos são substituídos por uma perspectiva mais lata e mais objectiva. Ao entrarmos numa meditação mais profunda, poderemos experimentar sentimentos de amor e alegria que parecem surgir das nossas profundezas e cuja intensidade pode ser tal que nos dêem arrepios. Podemos ser completamente invadidos por um tal sentimento de ternura que o coração e a mente se fundem numa faculdade única que vê tudo com uma claridade muito maior. Certos meditantes mais experimentados ou mais dotados podem mergulhar ainda mais fundo, em estados de inspiração completamente envolventes, nos quais as fronteiras habituais entre o eu o resto do mundo começam e dissolver-se. Podem mesmo manifestar-se certos poderes ditos “sobrenaturais”, tais como a capacidade de exercer um efeito positivo sobre o espírito alheio.

Isto parece muito atraente mas, como é óbvio, a meditação nem sempre se passa assim. A maior parte das pessoas também têm momentos em que a meditação é um rodopio de desejos, ódios ou conflitos. Nessas alturas meditar é um trabalho árduo. Mas a meditação é útil mesmo quando o nosso espírito está agitado pois permite-nos controlar progressivamente esses estados de espírito negativos, durante a sessão de meditação e no resto da nossa vida.

Embora a meditação samatha seja uma preparação para a prática de vipassana ou de “cognição”, deveria ser óbvio, pelo que foi dito, que não se trata de um mero e aborrecido exercício preliminar, algo que temos de ultrapassar o mais depressa possível para podermos chegar “ao que é importante”. Mesmo que não existisse meditação vipassana, valeria a pena praticar samatha. O facto de praticar samatha, mesmo quando é muito difícil, aumenta a capacidade de modificar os nossos estados de espírito e faz-nos sentir mais calmos, mais equilibrados e mais positivos. Nos melhores momentos, é profundamente agradável e pode ter efeitos poderosos sobre a nossa maneira de viver dando-lhe uma perspectiva mais clara, mais luminosa e mais vasta.

A Meditação Vipassana
Para muitas pessoas os resultados mais evidentes da prática budista é uma maior serenidade, uma atitude mais calorosa e mais positiva e uma maior atenção, acompanhadas por um sentimento de dignidade e de contentamento. Mas por muito desejáveis que estas qualidades sejam, não são objectivos em si pois o ser humano mais sadio continua a ser afectado pela mudança. Para deixarmos de ser afectados pelas circunstâncias, para nos elevarmos acima da adversidade, da doença e mesmo da velhice e da morte, temos de ser mais do que um ser humano sadio. A saúde mental é um objectivo válido mas limitado. A partir de um certo ponto a visão, essa cognição transcendente da verdadeira natureza da realidade, é a finalidade última da via espiritual.

As práticas de meditação vipassana são as técnicas que os budistas utilizam para estimular essa cognição. Existem inúmeras técnicas e aliás a maior parte das quatrocentas técnicas meditativas budistas pertencem provavelmente a esta categoria. Não teria muito sentido descrevermos uma ou outra num livro tão curto, mas existem algumas características comuns de que podemos falar.

As técnicas de vipassana exigem a obtenção prévia de um nível de meditação estável e profundo, graças uma prática de samatha como aquelas que anteriormente descrevemos. Uma vez que este estado foi atingido, o meditante pode concentrar a atenção numa representação simbólica de um aspecto da realidade última, numa frase ou numa imagem visual. Deixa então que esta representação simbólica se difunda na sua consciência sobrelevada e apurada de modo a que ela lhe comunique a cognição da verdade que incarna. Quando atinge a estabilidade, o meditante pode alternar entre a concentração sobre a natureza do próprio espírito e uma grande acuidade de presença consciente, com o objectivo de chegar a uma cognição directa da natureza da realidade que está a experimentar.

Já dissemos que o tipo de cognição a que os budistas fazem referência não é uma mera compreensão intelectual. Nunca será demais lembrá-lo. A razão é apenas uma pequena parte do nosso psiquismo. A compreensão meramente intelectual de um certo aspecto do mundo ou de nós próprios pode surgir como uma revelação, mas tem uma influência muito limitada no nosso comportamento ou na nossa visão das coisas, enquanto que uma cognição directa conquista e altera o nosso ser por completo. Mas para chegarmos a esse tipo de cognição temos de estar num estado especial de elevação espiritual e esta meditação cognitiva só é eficaz se tivermos a base firme da ética e da meditação samatha. Por conseguinte, não podemos atingir a Iluminação através dos livros, dos estudos ou da filosofia, por muito valor que estas coisas possam ter em determinado contexto.

O objectivo último da meditação vipassana é a acumulação e o amadurecimento desta cognição até ao momento em que ela provoca aquilo que foi chamado “uma viragem no profundo oceano da consciência”. Esta viragem é irreversível: a mudança é tão profunda e tão radical que não temos qualquer possibilidade de voltarmos à nossa antiga perspectiva mais estreita e mais egoísta. A partir deste ponto o nosso ser volta-se inteiramente para a Iluminação e só podemos ir em frente.

Excerto extraído do livro “Pensamento Budista” de Chris Pauling, Editorial Presença

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