Sem limites: a via do Bodhisattva 5

O próximo voto é: Os desejos/ilusões são inesgotáveis, eu faço voto de lhes pôr um fim. Também este levanta muitas questões (e controvérsia e rejeição) e toca numa das concepções erróneas acerca do Zen. Este voto não é sobre a extinção do desejo, não é sobre desligar, tornar-se inumano e frio, ou não ter sentimentos. Pelo contrário, este voto reconhece o fluxo constante de desejos. Este fluxo é ilimitado. É como uma nascente a brotar constantemente. Este fluxo é uma expressão da vida. Se não a tivéssemos não estaríamos vivos.

Não há nada de errado em ter desejos. Este voto não diz “Eu faço voto de me livrar dos desejos”. O que diz é “Eu faço voto de pôr fim ao desejo de satisfazer constantemente os meus desejos”. Este desejo insaciável de satisfazer os nossos desejos traduz-se em apego, em agarrar-se aos desejos: “Eu tenho este desejo e quero satisfazê-lo agora!” Assim, com este voto, digo “Eu reconheço o desejo e permito-o existir”. Ao fazê-lo, estou a pôr fim ao controlo que os desejos têm sobre a minha vida. Eu estou a fazer votos de estar presente para os desejos, com os desejos, para além dos meus gostos e não-gostos – para além de os querer satisfazer, para além de não os querer ver saciados, apenas consciente destes.

O Dalai Lama conta uma história sobre este voto, de quando esteve em Los Angeles para uma conferência durante vários dias. LA é uma cidade extensa e para se deslocar de uma lado para o outro ele precisou de longas viagens de carro. Assim, a cada dia, ele precisou que o levassem de carro entre o hotel e o centro de conferências onde ia falar. Ao longo da estrada havia muitas lojas (existe muito comércio nos Estados Unidos, muito consumismo – desejo). Muitas destas lojas vendiam aparelhos electrónicos de vários tipos. O Dalai Lama admite seriamente que adora eletrónica; adora rádios, relógios, aparelhos, aviões e mecanismos de qualquer espécie, inclusive mecanismos da mente. Após alguns dias a viajar para um lado e para o outro nessa estrada de ligação, passando por todas essas lojas com esses objetos nas montras, ele percebeu que queria tudo aquilo que estava exposto! Ele queria todos os aparelhos, todos os equipamentos. O Dalai Lama queria todas aquelas coisas. E ele percebeu que não sabia o que metade dessas coisas eram! Ele nem sabia o que estes aparelhos eram e ainda assim desejava-os!

Este é o desejo de que falamos. É assim que ele funciona. Queremos o que não temos, normalmente. Podemos querer um carro, tudo bem, mas o que realmente queremos é o carro do vizinho. O dele é bem melhor que o meu. Queremos sempre aquilo que não temos porque o que quer que tenhamos nunca será suficiente, nunca vai satisfazer. O desejo é insaciável! Este voto pretende pôr um fim aos desejos, no sentido de tomarmos consciência destes. O Dalai Lama pôs um fim aos seus desejos apenas por tomar consciência deles e perceber a sua natureza – ele nem sequer sabia o que os aparelhos eram! Ele não precisava de os ter mas tomou consciência de que os queria. E ele não precisou de agir, ele não os comprou. Ou perguntou por eles. Apenas tomou consciência de que o desejo estava ali.

 

Ensinamento de Sensei Amy Hollowell

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s