Gota de Orvalho

Sem limites: a via do Bodhisattva 2

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É frequente a má interpretação do Zen, assim como de muitas outras coisas no mundo. A maior parte das vezes, não compreendemos um determinado número de coisas quando estamos apegados às nossas ideias e opiniões, aos nossos gostos e não-gostos. Uma das ideias erróneas sobre o Zen é de que este representa uma prática negativista e niilista, quando na realidade é o oposto. É uma prática afirmativa e inclusiva; o Zen afirma toda a Vida. Estar presente para além dos gostos e não-gostos é simplesmente uma reafirmação da vida; estar presente com tudo isso, estar consciente de tudo isso.

Enquanto aqui sentados antes desta conversa, eu ouvia o edifício – o ranger e estalar do telhado, por exemplo – e comoveu-me bastante o seu esforço e vontade de se nos entregar completamente. Podemos aliás ouvi-lo a dar-se. E ao ouvir isto fiquei comovida pelo facto do edifício se entregar desta maneira sem desejar nada em troca. Não cobra nada. Ainda assim, se o ouvirmos e recebermos – ao estarmos presentes -, provavelmente vamos tratá-lo de uma maneira diferente daquela que trataríamos se não estivéssemos conscientes disto.

Durante este retiro todos aprendemos a estar presente para além dos nossos gostos e não-gostos, de uma maneira ou de outra. Apesar de vocês não estarem conscientes disso, é óbvio e é manifestado de várias maneiras – olhem à vossa volta. Antes de nos sentarmos estava lá fora a tomar chá. Ali estava o Nuno lavando as tampas dos caixotes do lixo – todo ele! Não havia separação, ele estava só a lavar as tampas muito bem! Não sei o que lhe ia na cabeça, não interessa. Ele estava a mostrar um ato de compaixão de forma maravilhosa. Ele estava a pôr em prática o que tem vindo a aprender nestes dias. Depois a Marlene veio, com um cesto de ervas aromáticas que tinha apanhado graças à Ivone, que as cultiva e conhece, e com quem partilhou a experiência. Não sei o que a Marlene vai fazer com as ervas, mas tenho a certeza que não são só para ela. Talvez ela as partilhe com o To Zé ou com outras pessoas. Não interessa muito. O que me tocou naquele momento foi a ação sem separação, sem o pensar “Estou a fazer algo bom” ou “Estou a fazer isto”. É aquilo a que chamamos um ato livre, agir livremente sem esperar nada em troca. Depois fui para dentro. Queria pôr o saquinho do chá no lixo certo mas não sabia qual – papel? Composto? Nenhum? Lá veio o To Zé, levou-me o saquinho do chá e fez com ele o que precisava ser feito. Não sei o que fez mas não houve igualmente um espaço na sua ação. Ele agiu de acordo com aquilo que lhe foi apresentado. Podia exemplificar um ato semelhante para cada uma das pessoas aqui. Toda a gente, apenas por se sentar aqui, ainda que sem saber – felizmente, porque se o soubessem não seria isso.

 

Ensinamento de Sensei Amy Hollowell

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