Por que meditar?

Mais do tornar-se numa melhor pessoa, ou até numa pessoa desperta, a prática da meditação permite ver como nos relacionamos com o nosso estado desperto já existente.  E para isso precisamos de confiança, mas também de abertura.

A confiança representa um papel muito importante na prática da meditação. E a confiança de que falamos é a confiança em si mesmo. Esta confiança tem de ser  redescoberta mais do que desenvolvida. Temos todo o tipo de conceitos e atitudes que nos impedem de desvendar a nossa confiança de base. E isto é conhecido como o véu da concetualização.

Por vezes pensamos na confiança em termos de alguém que nos vai dar segurança, ou quando confiamos em alguém enquanto exemplo ou inspiração. E este tipo de confiança implica não pensar em si e procurar algo fiável no exterior. Mas quando nos centramos demasiado no aspeto externo, perde-se o sentido real da confiança.

A confiança real não é virar-se para fora, como se nos sentíssemos empobrecidos ou como se algo estivesse em falta. Quando temos essa mentalidade, sentimos que não temos nada de valioso em nós, portanto tentamos copiar o sucesso ou estilo de outra pessoa ou usamos os recursos de outrem. Contudo, o Budismo é uma tradição não-teísta, o que significa que a ajuda não vem de fora.

O termo sânskrito para meditação, dhyana, é comum a muitas tradições budistas. Em chinês é chan, e em japonês é zen. Usamos a palavra “meditação” no ocidente, mas como é que podemos expressar o seu sentido ou o que realmente é esta abordagem?

Temos de saber o que significa. Por vezes usamos a palavra para significar “esvaziar”  ou “soltar”. Por vezes parece significar relaxamento. Contudo, o objetivo da prática da meditação é redescobrir a nossa neurose subjacente, bem como a nossa sanidade inerente.

E embora a meditação implique treino e disciplina, o objetivo não é tornares-te numa pessoa altamente treinada, uma espécie de atleta de grande competição da maratona da meditação, comportando-te com um certo estilo, o de alguém “iluminado”. Em vez disso, o sentido da meditação, é uma intensa leveza.

A meditação é algo de intenso, pois a prática é exigente, o compromisso de sentar dia após dia é muito rigoroso. Ao mesmo tempo, a prática de meditação é muito leve, pois não é preciso fazer nada, não há nada a obter, a conseguir, quando praticamos. Assim, uma leveza imensa e uma liberdade intensa, esse é o significado da meditação.

Há uma outra tradição de prática, a tradição contemplativa, que implica a contemplação de certos temas ou ideias. Pode visualizar-se a lua cheia, a chama de uma vela, gotas da chuva, ou podemos imaginar-nos a nós mesmos como um corpo de luz. Há visualizações em que se usam símbolos de todo o estilo. Tudo isto faz parte da tradição contemplativa e não da meditativa. E segundo o Buda, essa prática pode tornar-se uma espécie de ginástica mental, ou uma fonte de distração que pode aumentar a neurose em vez de levar ao despertar.

Do ponto de vista do budadharma, a simplicidade é importante. Assim, dhyana, meditação, significa confiança na simplicidade. Este é o ponto de partida.

Outro ponto importante da meditação é a disciplina. A disciplina leva à abertura. Mas a disciplina é muito exigente, é a disciplina de ser, de sentar, de praticar, e envolver completamente a atitude, conceitos, mente subconsciente, emoções, questões domésticas, cada aspeto de si mesmo, na prática. Tudo o que faz parte desta existência se torna parte da meditação, o que é uma intensa demanda.

Aceitar esta demanda leva a abrir uma porta que até aí estava fechada. Deste ponto de vista, cultivar a abertura não é nada fácil. Pois esta porta é muito pesada, e está bloqueada. Não é uma porta artificial, mas uma porta muito real e muito pesada. Para a abrir, primeiro move-se a maçaneta, e depois é preciso empurrar, e empurrar, e empurrar. E se a porta mesmo assim não se abre, é preciso empurrar ainda mais. A certa altura, começa-se a ouvir o som da madeira a ceder, que é o primeiro sinal de que é realmente possível abrir a porta. Os estalidos são o sinal de que algo está a acontecer.  Devagar, muito devagar, abre-se um pouco, e mais um pouco, até que finalmente a porta  é aberta. Uau!

É assim que a disciplina significa abertura —é algo de muito deliberado. Nada nos é dado gratuitamente, nada acontece facilmente.

A meditação também implica treinar a mente curiosa como parte da prática. E a informação não é um elemento estranho, faz parte de cultivar a capacidade de investigação.

Esta qualidade de inquirir e questionar é referida em termos tradicionais enquanto fé ou devoção. Porquê? Interrogamo-nos quando queremos encontrar alguma coisa. Quando há algo que nos interessa ou incomoda. Absorve-nos e queremos saber mais e mais. Esta atração é a base da fé ou devoção. Tem de haver algo para além do que está, por isso exploramos mais e mais e mais. Não nos cansamos da experiência mas investigamo-la profundamente. De cada vez que descobres alguma coisa, sentes-te ainda mais curioso.  Esta fé ou devoção pelas coisas é muito contagiosa.

Outro aspeto da meditação é que revela mais neurose. Refiro-me à neurose que tentas esconder de baixo do tapete, das almofadas, do assento, de baixo da secretária. Não queres olhar para ela, por isso a escondes de baixo de algo, algures. Tentas não pensar nisso.

Temos de ir ao encontro dessas neuroses que se têm escondido de nós mesmos. Geralmente dizemos: “Ora, isto não é muito agradável, mas não faz mal. Vai acontecer alguma coisa muito melhor. Vou aproveitar isso, em vez de olhar para isto aqui, que é tão desagradável. Esquece!” Há muito tempo que nos comportamos assim. Na verdade, já nos tornamos tão profissionais nesta abordagem que já nem nos questionamos.

Portanto, a  meditação desvenda estes truques que fomos aperfeiçoando. No início, o principiante sente-se desajeitado e até embaraçado. Pode questionar-se se vale a pena e se faz sentido. A meditação pode parecer desnecessária. Parece uma perda de tempo, de dinheiro, de esforço.

A meditação tem a ver com relacionar-se com dois fatores. Relaciona-te a ti contigo e relaciona-te com o teu mundo.  Através da prática de meditação sincronizas o teu mundo e sincronizas-te a ti mesmo. Trabalhar com os dois aspetos eventualmente leva a produzir uma faísca. Como o atrito entre duas pedras pode produzir faísca. A faísca ou chama que produzes chama-se karuna, ou compaixão.

Quando chegas à meditação podes não gostar de ti. Podes detestar-te ou detestar o teu mundo.  Mas continuas a praticar e a relacionar-te contigo e o teu mundo simultaneamente, tanto na meditação como nas situações do dia-a-dia.  E ao fazê-lo completamente, profundamente, começa a desenvolver-se uma espécie de calor.   Descobres que afinal consegues trabalhar com o mundo dos fenómenos. Podes ainda não gostar dele, mas pelos menos já consegues lidar com ele. E talvez percebas que também consegues lidar contigo.

A prática de meditação é composta por estes três elementos: trabalhar consigo mesmo, trabalhar com o mundo dos fenómenos, trabalhar com o calor que vai aumentando. Podes começar a gostar da tua frustração, dor, e aborrecimento. Tudo faz parte do teu mundo.

A prática de meditação é a única forma de cultivar esta confiança fundamental em ti mesmo e no teu mundo. Para além disso, a meditação é a chave para desenvolver a abertura e o potencial de despertar. Sem esta prática de base, facilmente és distraído por todo o tipo de processos de diversão. Essas distrações podem ser agradáveis durante   uns tempos. Podes passar por coisas muito fantásticas e exóticas. Mas quando atravessas essas experiências, o teu veículo tem um furo, de uma forma ou outra. Algures, estás a verter. Não consegues manter as coisas em ti devidamente. O fascínio, a impaciência, tentar fazer o melhor ao mesmo tempo que te “entreténs” é o âmago daquilo a que chamo materialismo espiritual. O desejo de transformar a espiritualidade em algo que se pode possuir e a tendência para ver a espiritualidade como algo exterior a si, é algo com que é sempre necessário lidar.

Segundo o materialismo espiritual, quando sentes que a tua vida é uma confusão, procuras alguém a quem deitar as culpas. Mas ignoras que estás a verter. É o teu veículo que está a verter.

A meditação, sobretudo no início, exagera as brechas. Continuas a encher o teu veículo de todo o tipo de coisas, de experiências interessantes, mas nunca está cheio. E finalmente, através da prática de meditação, percebes que tem uma brecha. Não se trata de magia. A brecha é a desconfiança. Estás a rejeitar a tua sanidade de base, e pensas que essa sanidade é algo que tem de ser adquirido através de alguém e depois transplantado para ti.

A fraqueza real é pensar que não és suficientemente bom, e que há uma segurança exterior que tens de encontrar.  Que tens de ser como outra pessoa. Que outra pessoa tem a sanidade e tu és complicado, ou partido, ou perturbado. Pensas que tens de te tornar como outra pessoa em vez de seres tu mesmo. Quando te dás conta que é isso que tens estado a fazer, então a vida torna-se real e trabalhável—pois já o era, desde sempre.

Em resumo, a meditação é um meio de trabalhar consigo mesmo e o mundo dos fenómenos. Trabalhar com estes dois ao mesmo tempo produz faíscas de calor e confiança. A sensação de que é possível lidar com tudo isto começa a permear a tua vida.

 

Chögyam Trungpa Rinpoche (1940-1987)

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One Comment Add yours

  1. Paula Marianela Cleto diz:

    Gostei muito, ajudou-me a encarar a meditação sob um ponto de vista, simultaneamente, mais complexo e mais simples. Foi/é muito importante para a minha prática, para dar um rumo à minha vida; obrigada!

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