Nem acreditas no que eu não acredito

De tempos a tempos colocam-me esta questão: Em que é que os budistas acreditam? Gosto de responder que o Budismo não requer crenças, mas isso é difícil de acreditar.  E então ofereço isto.

Acredito no amor. Não no amor que é inimigo do ódio, mas no amor que não tem inimigos ou rivais, não tem princípio ou fim, não tem justificações nem razões.  Amor e ódio não têm nenhuma ligação e não são comparáveis. O ódio nasce do medo. O amor é não-nascido, o que significa que é eterno e absolutamente destemido. Este amor não requer a minha crença, requer a minha prática.

Acredito na verdade. Não a verdade que é investigada ou exposta, interpretada ou debatida. Mas a verdade que é revelada, inevitável e inquestionavelmente, mesmo em frente de mim. Toda a verdade se revela; só não surge tão rápida ou enfaticamente como eu gostaria. Esta verdade não requer a minha crença, requer a minha prática.

Acredito na liberdade. Não a liberdade confinada ou decretada por uma ideologia, mas a liberdade livre de todas as imposições, definições, expetativas e doutrinas. Não a liberdade em nome da qual trememos e lutamos, mas a liberdade que não precisa de defesa. Esta liberdade não requer a minha crença, requer a minha prática.

Acredito na justiça. Não a justiça que é deliberada e perseguida; não a que é pesada e medida, ou alcançada pelo meu corrupto interesse. Acredito na precisão infalível da causa e efeito, a lei universal e inviolável da interdependência. Revela-se perante mim mesma através do meu próprio sofrimento, de cada vez que estou a agir com um gesto violento, uma mente ávida ou um pensamento egoísta.  Revela-se no estado do mundo, no estado da mente em que residimos. Esta justiça não requer a minha crença, requer a minha prática.

Acredito na paz. Não na paz que é um prémio. Não na paz que pode ser conquistada. Não há paz na vitória; só há ressentimento, recriminação e dor. A paz que procuro é a paz que ultrapassa qualquer compreensão. A paz que está sempre à mão quando abro a minha mão. Seja no que for em que acredites, esta paz não requer uma crença, requer prática.

Acredito na sabedoria. Não a sabedoria que é transmitida ou obtida; Não a sabedoria procurada ou a sabedoria acumulada. Mas a sabedoria que já nos pertence de direito. A sabedoria que se manifesta nas nossas mentes claras e corações abertos, e que integramos enquanto amor, verdade, liberdade, justiça e paz.  A sabedoria que é uma prática.

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Karen Maezen Miller, professora zen

http://karenmaezenmiller.com/you-wont-believe-what-i-dont-believe/

Tradução: Margarida Cardoso

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