A Impermanência

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O segundo pensamento de transformação da mente que nos desperta do estado de ignorância é a contemplação da  impermanência – impermanência não meramente como uma compreensão intelectual, mas antes como uma forma de ser que se incorporou na nossa sabedoria viva. Todos sabemos que as coisas mudam, mas quantos de nós vivem e agem a partir desse plano de compreensão? Quando verdadeira e profundamente se vê a verdade da impermanência, os nossos corações e mentes relaxam. Menos facilmente nos agarramos tão desesperadamente às coisas, ou até aos nossos próprios desejos. Enquanto soltamos as amarras a tudo o que está sempre a mudar, necessariamente deixamos de lutar e portanto, de sofrer. Podemos ver isto claramente com os nossos corpos a envelhecer. Se estamos agarrados a que permaneçam de uma certa forma, então vamos sofrer quando se transfiguram por causa de um acidente, de uma doença, ou simplesmente pelo envelhecimento. Ajahn Chaa, um maravilhosos professor da tradição tailandesa da Floresta, expressou isto muito simplesmente: “Se te soltares um pouco, terás um pouco de paz. Se te soltares muito, terás muita paz. Se te soltares completamente, terás paz completa. A tua luta neste mundo terá chegado ao fim.”

É por vezes difícil ver e perceber que as condições mutáveis que surgem não são erros. Parecem-nos erros porque por vezes pensamos que se fossemos suficientemente espertos ou cuidadosos poderíamos evitar tudo o que é desagradável – que nunca ficaríamos doentes ou seríamos alvo do infortúnio. Na verdade, frequentemente não fizemos nada de errado. É assim que as coisas acontecem. O Buda falou das oito grandes vicissitudes da vida: prazer e dor, ganho e perda, elogio e censura, fama e descrédito. Estas mudanças acontecem a toda a gente. Uma das grandes leis do Dharma que muitas vezes redescubro é “se não é uma coisa, é outra”.

Foi esta reflexão sobre a impermanência que inspirou Siddhartha Gautama na sua questa pela iluminação, ao procurar descobrir o que é não-nascido e não-perecível. “Porquê, sendo eu mesmo sujeito ao nascimento, procuro aquilo que também é sujeito a nascer? Porquê, sendo eu próprio sujeito ao envelhecimento, à doença, à morte, ao desgosto… procuro o que também está sujeito ao envelhecimento, à doença, à morte, ao desgosto?” Sujeitos à mudança, porque procuramos o que está sujeito à mudança? Embora a determinado nível, possamos ver e compreender a futilidade de procurar satisfação em coisas que pela sua natureza não perduram, frequentemente damos connosco a viver a nossa vida na expectativa da próxima experiência, quer esta seja as próximas férias, a próxima relação, a próxima refeição, ou apenas a próxima respiração. Curvamo-nos e assim ficamos para sempre enredados na expectativa. Reflectindo e observando directamente a impermanência lembra-nos continuamente que toda a experiência é simplesmente parte de um interminável espectáculo passageiro.

O meu primeiro professor do Dharma, Anagarika Munindra, costumava perguntar-nos: “Onde está o fim de ver, o fim de provar, o fim de sentir?” Claro que não há nada de errado com essas experiências – simplesmente não conseguem satisfazer a nossa ânsia profunda de felicidade. O maravilhoso paradoxo do caminho espiritual é que todos estes fenómenos variáveis enquanto objectos do nosso desejo deixam-nos com um vazio, enquanto como objectos de atenção plena tornam-se o veículo do despertar. Quando tentamos possuir e agarrar as experiências que pela sua natureza são transitórias, inevitavelmente ficamos insatisfeitos. Contudo, quando olhamos com consciência para a natureza continuamente inconstante destas mesmas experiências, já não somos tão conduzidos pela sede do desejo. Por “consciência” quero dizer a atitude de prestar atenção plena ao momento, abertos à verdade da mudança. Portanto não se trata de fechar os nossos sentidos e afastarmo-nos do mundo, mas de abrir o nosso olho da sabedoria e ser livre no mundo.

A percepção libertadora surge tanto de uma observação profunda e clara da impermanência em níveis momentâneos como de uma sábia consideração do que já sabemos. Como forma de praticar esta observação, na próxima vez que derem um passeio, prestem atenção ao movimento do vosso corpo e às coisas que pensam, vêm e sentem. Reparem no que acontece a todas estas experiências enquanto continuam o vosso caminho. O que acontece com elas? Onde estão? Quando olhamos, vemos tudo continuamente a desaparecer e novas coisas a surgir – não apenas em cada dia e a cada hora, mas também a cada momento. Esta verdade é tão vulgar que nem lhe prestamos atenção. Ao não prestar atenção, perdemos a oportunidade quotidiana de a qualquer momento ver directamente, e profundamente, a natureza transitória das nossas vidas. Perdemos a oportunidade de praticar a mente do desapego. “Se te soltares um pouco, terás um pouco de paz. Se te soltares muito, terás muita paz. Se te soltares completamente, terás paz completa. A tua luta neste mundo terá chegado ao fim.” Além de observar a natureza de momentânea da mudança, reflexões cuidadosas nos três aspectos óbvios e universais da impermanência podem igualmente sacudir-nos da complacência dos nossos hábitos e padrões profundamente enraizados.

Um primeiro aspeto a considerar é que o fim do nascimento é a morte. Com o passar do tempo, as nossas vidas ficam cada vez mais curtas. A vida só pode esgotar-se. Mas a nossa percepção da morte frequentemente está limitada às outras pessoas; parecem ser sempre os outros a morrer. Não consideramos muitas vezes a realidade da nossa morte ou da morte das pessoas que nos são próximas. Como experiência, imaginem-se no vosso leito da morte a olhar para trás, para a vossa vida. Imaginem isso o mais realisticamente que possam. A que é que estão mais agarrados? O que é que teriam gostado de realizar na vossa vida? O que terá mais valor nesses momentos derradeiros? O grande segredo, claro, é fazermo-nos essas perguntas agora, quando ainda temos tempo para fazer escolhas criativas e significativas. Quando reflectimos na morte, esta grande verdade da mudança, aceitamo-la? Amedronta-nos? Inspira-nos?

O segundo aspeto da impermanência é que o fim da acumulação é a dispersão. Todas as coisas que acumulamos nas nossas vidas inevitavelmente serão dispersas. Ou porque perdemos interesse nelas (como acontece tão frequentemente) ou porque se partem, ou ficam no canto de um armário até que nos mudamos ou morremos. Contudo, a tendência para acumular é muito forte. As nossas casas de uma maneira ou de outra enchem-se de coisas, até ao ponto de arrumar a um armário ser uma grande fonte de satisfação.

Num documentário sobre a vida de Sir Laurens Van der Post, faz-se um flagrante contraste entre os Bushmen do Sul de África e os europeus que os estavam a filmar. Sir Laurens, que claramente admirava e amava a espantosa harmonia com que viviam no mundo natural, perguntou-lhes quanto tempo levariam para preparar-se para uma viagem. Eles responderam: “cerca de um minuto”. E o filme mostrava-os a pegarem nos poucos objetos de sobrevivência de que necessitavam e a partir para o deserto. Em contraste, quando a equipa de filmagem se preparou para partir, houve um aparentemente interminável carregamento do jeep, com toda a parafernália ocidental para a aventura. A sugestão aqui não é de necessariamente nos empenharmos em viver tão simplesmente como os Bushmen, – embora a simplicidade do estilo de vida deles seja remanescente dos monges errantes e sadhus (ascéticos) da Ásia – mas antes que examinemos os nossos hábitos e necessidade de acumular e de nos agarrarmos às coisas, à luz do entendimento que tudo o que acumulamos no fim de contas se dispersará.

Porque investimos tanta energia na aquisição? Deve haver muitas bases psicológicas para este comportamento, encarando-o como uma ação compensatória, e até às vezes compulsória, para uma carência profunda. Mas também podemos entender a força por detrás deste hábito de acumulação de uma forma mais simples, nomeadamente, na profunda influência que a sociedade de consumo exerce sobre as nossas mentes. Continuamente reforça desejos e quereres, muitas vezes agregando valores espirituais para o fazer. Uma recente publicidade para um automóvel mostra um casal atraente em frente de um carro novo, rodeado por todas as últimas delícias consumistas. A legenda diz: “Para se tornar um com tudo, precisa de um de tudo”.

Como fomos tão condicionados à ideia de que as possessões trazem satisfação, nas nossas vidas comuns não temos muitas oportunidades de experienciar o bem-estar de uma existência mais despojada. Talvez isso explique o interesse crescente nos Estados Unidos não só em retiros de meditação como também em atividades na natureza. Nessas alturas escolhemos uma simplicidade voluntária que ilumina uma verdade básica e transformativa: a despeito de todas as publicidades, a felicidade não depende de quanto possuímos.

A impermanência também se encontra no facto de que o fim do encontro é a separação. Os encontros que temos uns com os outros são como misturar-se num sonho. Contudo, frequentemente ficamos tão enredados nas nossas relações que qualquer separação se torna fonte de um desgosto esmagador. O Buda deu um exemplo notável deste facto, ao dizer que no decurso das nossas inúmeras vidas cada um de nós já verteu mais lágrimas devido à morte das pessoas que amamos do que toda a água dos oceanos. Embora os sentimentos de perda e pesar sejam naturais na maior parte de nós, mesmo assim, quanto mais contemplamos e aceitamos a verdade que todos os encontros terminarão com uma separação, menos provavelmente nos afogaremos nessas águas.

Podemos começar a experienciar a diferença entre amor e apego, entre perda e desgosto. O amor é uma generosidade do coração que simplesmente deseja a felicidade dos outros; apego é uma contração do coração, nascido do desejo, que resulta no agarrar-se e no medo da perda. Refletir na impermanência inevitável das nossas relações reorienta-nos para a solicitude e o amor-bondade em vez do apego, para soltar em vez de apertar. A compreensão da impermanência conduz-nos para a experiência da liberdade, pois nesses momentos de desprendimento podemos aceder e realmente saborear o que realmente tem valor nas nossas vidas.

 

Joseph Goldstein, One Dharma (tradução de Margarida Cardoso)

 

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