Pôr-se a caminho

Embora haja muitas diferenças entre as várias religiões do mundo e entre as várias escolas do Budismo, também há muita coisa em comum, e isso é muito visível quando iniciamos a viagem. Para muitos de nós, o primeiro passo no caminho espiritual, o portão de “Um Dharma”, surge quando nos damos conta de um forte anseio íntimo por uma compreensão mais profunda ou por um sentido de paz e realização que está para além das convenções superficiais e das confusões que frequentemente parecem submergir-nos.

Mas podemos perguntar-nos: como alimentar esta chama no meio da actividade e preocupações da nossa vida de todos os dias? Há alguma forma de dirigir a nossa atenção para a verdade, para a compaixão, de forma a dar sentido a todos os altos e baixos da nossa experiência? Em todas as tradições do Budismo – mas mais articuladas mais sistematicamente pelos tibetanos – há quatro poderosas reflexões transformadoras que, quando bem praticadas, colocam-nos na pista de aterragem do despertar. São chamadas as Quatro reflexões que voltam a mente para o Dharma  (ou Quatro Pensamentos que transformam a Mente). Estas guiam-nos através das nossas distracções e conservam-nos orientados na direcção certa.

 

  1. O Precioso Corpo Humano

A primeira destas reflexões contempla a preciosidade do nosso nascimento humano. Na vasta cosmologia dos ensinamentos do Buda há muitos planos de existência, desde os vários reinos de sofrimento aos paraísos de maravilhosos deleites e beatitude sem forma. Há inúmeros universos, incomensuráveis expansões temporais, renascimentos sem princípio.

Dentro deste rico e infinito jogo da existência, obter um nascimento enquanto ser humano, é tido como um raro e precioso acontecimento. É como se de alguma maneira tivéssemos chegado a uma fabulosa ilha do tesouro, onde, se soubermos como, todas as coisas boas estão ao nosso alcance. Sob esta forma humana temos o potencial para compreender as causas da felicidade e a liberdade de as cultivar. E há exactamente o equilíbrio certo entre dificuldade e facilidade para nos motivar a fazê-lo.

Quer acreditemos ou não em vidas passadas ou futuras ou na existência de outros reinos, mesmo assim podemos praticar esta reflexão que encaminha a nossa mente para o Dharma quando consideramos as circunstâncias da nossa situação presente. Neste momento, temos tempo, recursos e interesse suficientes para explorar o caminho do despertar, mas todas estas condições são incertas e podem mudar a qualquer momento. Em tantos lugares do mundo, as pessoas podem ter vidas pacíficas e estáveis, e de repente, algo acontece, e as suas vidas ficam viradas do avesso. Desastres naturais como inundações, incêndios, terramotos, e mesmo furacões podem ocorrer; a guerra e a violência irrompe, ou alguém sofre a experiência de súbitos sintomas de uma doença terminal. Nenhum de nós está ao abrigo de nenhuma destas condições variáveis.

Ao reflectir na existência de circunstâncias favoráveis nas nossas vidas e ao lembrar que estas nem sempre podem estar presentes, isto aumenta a energia em nós para usarmos o nosso tempo da melhor forma – tempo que só existe devido ao facto de termos um precioso nascimento humano. Conseguimos ver todas estas condições como uma dádiva e uma bênção, em vez de as tomarmos como algo adquirido e assumirmos que sempre vão permanecer assim?

 

Mesmo em tempos e situações desfavoráveis o nascimento humano em si mesmo proporciona oportunidades para aprofundar a nossa sabedoria e compaixão. Uma das minhas mais queridas professoras, uma mulher de Bengali chamada Dipa Ma, passou por períodos de intenso sofrimento pessoal. Enquanto vivia em Burma com a família, o marido e duas das suas três crianças morreram num curto espaço  de tempo, deixando-a inconsolável. Ela descreveu a sua dor como colocando-a à beira da morte. Depois de quase cinco anos de desgosto e de profunda debilitação, um amigo levou-a a um centro de meditação em Rangoon e aí começou uma viagem interior extraordinária. A profundidade do seu sofrimento tornou-se na motivação para uma prática decidida, e a sua realização era espantosa, mesmo num país de célebres mestres de meditação.

Também podemos praticar esta reflexão sobre a preciosidade da vida humana ao contemplar um dos princípios mais básicos do ensinamento budista – nomeadamente, que todas as experiências, incluindo a própria vida, não surgem por acaso, mas pela reunião de todas as causas e condições necessárias. A água congela quando está a determinada temperatura, não apenas porque desejamos que congele. Da mesma forma, as condições para obtermos uma forma humana – e sejam quais forem as nossas circunstâncias presentes – são as nossas boas acções passadas. Somos os herdeiros dos nossos actos. Esta compreensão ajuda-nos a olhar a nossa história particular, com todas as suas alegrias e dificuldades, com um respeito profundo e genuíno.

Uma das lendas que rodeia a iluminação do Buda – uma lenda encontrada noutras tradições de uma forma ou outra – esclarece nitidamente este princípio. Descreve o momento em que as forças poderosas da tentação, do desejo e da dúvida assaltaram a mente do Buda na véspera do despertar. Diz-se que aquele que se tornaria o Buda tocou a terra, tomando-a como testemunha do seu direito de estar ali sentado, no “Trono de Diamante do Despertar”. Através dos seus esforços passados, tinha criado as condições que permitiriam a libertação. Portanto, mesmo quando cruzamos as muitas dificuldades da vida e da prática espiritual, nós também podemos tocar a terra como uma lembrança simbólica de que a nossa vida humana só por si  reflecte o nosso profundo valor.

Este pensamento é particularmente útil na nossa cultura ocidental por causa dos sentimentos generalizados de desconexão e desmerecimento. Durante uma das minhas estadias no centro de meditação de Burma, numa altura em que a minha prática parecia estar paralizada, o meu professor, Sayadaw U Pandita, disse-me para contemplar a minha sila, a palavra pali para moralidade ou ética. Ele pensou que ao recordar boas acções passadas, a minha energia aumentaria e a minha mente estaria mais positiva. Claro, quando ouvi a instrução: “Contempla a tua ética” a minha resposta interior imediata foi: “O que é que eu fiz de errado?”

Não somos frequentemente chamados a recordar as boas coisas que já fizemos. Deixados à nossa mercê, mais facilmente mergulhamos nos nossos erros passados. Mas reflectir de uma forma mais sábia na boa sorte do nosso nascimento humano e nas muitas acções positivas que nos trouxeram aqui, ajuda a desenvolver sentimentos interiores de alegria e de confiança.

 

 

We do not

We do not get a human life
Just for the asking.
Birth in a human body
Is the reward for good deeds
In former births.
Life waxes and wanes imperceptibly,
It does not stay long.
The leaf that has once fallen
Does not return to the branch.
Behold the Ocean of Transmigration.
With its swift, irresistible tide.
O Lal Giridhara, O pilot of my soul,
Swiftly conduct my barque to the further shore.
Mira is the slave of Lal Giridhara.
She says: Life lasts but a few days only.

 

Nós não obtemos uma vida humana

Só por pedirmos.

Nascimento sob um corpo humano

É a recompensa por boas acções

Em nascimentos anteriores.

A vida flui e reflui imperceptivelmente,

Não permanece para sempre.

A folha que uma vez caiu

Não volta ao ramo.

Olha o Oceano de transmigração

Com a sua rápida, irresistível maré.

Oh Lal Giridhara (Krishna), oh piloto da minha alma,

Conduz rapidamente a minha barca para a outra margem.

Mira é a escrava de Lal Giridhara.

Ela diz: a vida dura mas apenas uns dias

 

— Mirabai, a mais famosa poeta bakhta do Norte da Índia (séc. XVI)

 

(Joseph Goldstein, One Dharma – trad. Margarida Cardoso)

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