Não precisas de viajar

No início da minha prática tinha esta ideia de que os bons meditantes eram banhados continuamente por uma luz branca. Nunca ninguém me tinha dito que deveria sentir esta luz branca; eu é que achava que era o sinal de uma boa prática. E suspeitava que mal tivesse a experiência dessa luz branca, os meus professores exclamariam: até que enfim! já desesperávamos de que conseguisses chegar até aqui!

Mas eu não via nenhuma luz branca. O que sentia era dores nos joelhos. E com o tempo, tinha experiências diferentes mas nenhuma era a da luz branca, e eu queria mesmo era sentir a luz branca.

Seja o que fosse que experienciasse, não era suficientemente bom. Onde é que está a luz? Por que é que não está aqui?

Isto era o meu mantra.

Julgava a minha prática constantemente, comparando-a com o que eu achava que deveria ser. A desolação era tremenda.

Na prática da meditação, como na vida, podemos julgar as nossas experiências difíceis – agitação, estados negativos, dores físicas, etc. – como sendo erradas, inúteis.

Gostaríamos de prolongar as experiências agradáveis, como se fossem as únicas que valessem a pena serem vividas. Mas com paciência e compreensão, a prática da meditação pode levar-nos para além dessas reações condicionadas.

Quando meditamos, vamos o que quer que surja com aceitação e generosidade, com uma mente aberta e espaçosa. O objetivo desta aceitação não é o de fomentar passividade, mas chegar o mais perto possível da nossa experiência. Quando nos libertamos das nossas reações condicionadas, conseguimos ter uma visão íntima do que é verdade. O espectro completo da experiência humana está dentro de nós. Seja o que for que estejamos a sentir, ter consciência disso é o caminho para a sabedoria.

Quando praticava com U Pandita, comecei a reparar num padrão recorrente nas nossas entrevistas. Quando lhe contava uma experiência de meditação que considerava espantosa e impressionante, ele perguntava :”e anotaste isso?” Anotar refere-se às etiquetas mentais que justapomos a uma experiência, para a perceber mais diretamente. Mas eu ficava ali e pensava: ” O que é que ele quer dizer, se anotaste isso? A experiência foi gloriosa! Como é que eu ia anotar como se fosse outra coisa qualquer?”

Outras vezes ia vê-lo com relatos de experiências penosas. Ele olhava para mim e de cada vez dizia: “e anotaste isso?”. E eu pensava: “O que é que há para anotar? Foi horrível, será que ele não percebe isso?”

Levou algum tempo até eu apreciar a simplicidade, a importância, deste ponto de vista. U Pandita estava a perguntar-me se eu tinha tomado consciência de cada experiência com espaço e clareza da mente. Ele estava menos preocupado com o que estava a acontecer do que com a qualidade da atenção que eu trazia à experiência. O que queremos na prática é compreender a natureza das nossas vidas, e isto não implica um certo tipo de experiência mas uma qualidade da nossa consciência que não exclui nada.

A meditação é como entrar num sótão e acender a luz. Não é a fabulosa luz branca que eu tanto desejara, mas a luz comum, normal, libertadora, da consciência. Com essa luz, vemos tudo. Vemos todos os brilhantes tesouros que geram espanto e gratidão, pela habilidade em os descobrir. Vemos todos os cantos poeirentos que nos levam a dizer: ” É melhor fazer uma limpeza”. Vemos todas as relíquias do passado que pensávamos já terem ido para o lixo. Vemos tudo isso com uma consciência aberta e carinhosa.

A natureza íntima e inclusiva de mindfulness espelha a natureza do amor. Descobrimos que a consciência pode ir a qualquer lado, e que conseguimos ter este coração terno em qualquer circunstância.

Esta descoberta é a fonte da alegria que a meditação pode trazer às nossas vidas. Esta consciência amorosa contém a força que a mente que julga nunca nos poderá dar.

A verdade está em todo o lado, em todas as nossas experiências. Não temos de tentar desesperadamente ter um experiência sublime e, com este esforço, desdenhar o que está realmente a acontecer. Não temos de lutar para encontrar a verdade. Cada momento expressa a verdade das nossas vidas, quando sabemos como olhar. Como disse Santo Agostinho: “Se estás à procura de uma coisa que está em todo o lado, não precisas de viajar, precisas de amor para chegar lá.”

Sharon Salzberg, A Heart as Wide as the World

Anúncios

2 Comments Add yours

  1. Paula Laranjeira diz:

    Que maravilhoso texto! Obrigada Margarida

    ________________________________ De: Gota de Orvalho Enviado: 10 de março de 2016 15:54 Para: aplaranjeira@hotmail.com Assunto: [Novo artigo] Não precisas de viajar

    chumani posted: “No início da minha prática tinha esta ideia de que os bons meditantes eram banhados continuamente por uma luz branca. Nunca ninguém me tinha dito que deveria sentir esta luz branca; eu é que achava que era o sinal de uma boa prática. E suspeitava que mal “

  2. Simone Reis diz:

    Encontro nestes textos e outros relacionados, algo sempre inspirador e nos momentos mais difíceis são reconfortantes e luminosos, mesmo sem a luz branca! Agradeço à Margarida e ao Centro Budista tudo o que aprendi, ou melhor, vou aprendendo todos os dias, uns dias mais outros menos.
    Sempre grata

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s