três aspetos da impermanência

Além de observar a natureza momentânea da mudança, reflexões cuidadosas nos três aspetos óbvios e universais da impermanência podem igualmente sacudir-nos da complacência dos nossos hábitos e padrões profundamente enraizados.

Um primeiro aspeto a considerar é que o fim do nascimento é a morte. Com o passar do tempo, as nossas vidas ficam cada vez mais curtas. A vida só pode esgotar-se. Mas a nossa percepção da morte frequentemente está limitada às outras pessoas; parecem ser sempre os outros a morrer. Não consideramos muitas vezes a realidade da nossa morte ou da morte das pessoas que nos são próximas.

O segundo aspeto da impermanência é que o fim da acumulação é a dispersão. Todas as coisas que acumulamos nas nossas vidas inevitavelmente serão dispersas. Ou porque perdemos interesse nelas (como acontece tão frequentemente) ou porque se partem, ou ficam no canto de um armário até que nos mudamos ou morremos. Contudo, a tendência para acumular é muito forte. Porque investimos tanta energia na aquisição? Deve haver muitas bases psicológicas para este comportamento, encarando-o como uma acção compensatória, e até às vezes compulsória, para uma carência profunda. Mas também podemos entender a força por detrás deste hábito de acumulação de uma forma mais simples, nomeadamente, na profunda influência que a sociedade de consumo exerce sobre as nossas mentes.

A impermanência também se encontra no facto de que o fim do encontro é a separação. Os encontros que temos uns com os outros são como misturar-se num sonho. Contudo, frequentemente ficamos tão enredados nas nossas relações que qualquer separação se torna fonte de um desgosto esmagador. O Buda deu um exemplo notável deste facto, ao dizer que no decurso das nossas inúmeras vidas cada um de nós já verteu mais lágrimas devido à morte das pessoas que amamos do que toda a água dos oceanos. Embora os sentimentos de perda e pesar sejam naturais na maior parte de nós, mesmo assim, quanto mais contemplamos e aceitamos a verdade que todos os encontros terminarão com uma separação, menos provavelmente nos afogaremos nessas águas.

Podemos começar a experienciar a diferença entre amor e apego, entre perda e desgosto. O amor é uma generosidade do coração que simplesmente deseja a felicidade dos outros; apego é uma contracção do coração, nascido do desejo, que resulta no agarrar-se e no medo da perda. Reflectir na impermanência inevitável das nossas relações reorienta-nos para a solicitude e o amor-bondade em vez do apego, para soltar em vez de apertar. A compreensão da impermanência conduz-nos para a experiência da liberdade, pois nesses momentos de desprendimento podemos aceder e realmente saborear o que realmente tem valor nas nossas vidas.

Joseph Goldstein, One Dharma

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