danças sagradas e outras

Adorei esta história contada por Elizabeth Gilbert no seu último livro Big Magic. Refere as nossas confusões com tanto humor e leveza 🙂

“As danças do Bali são uma das mais extraordinárias formas de arte mundiais. São requintadas, intrincadas, e antigas. E sagradas. As danças são apresentadas ritualmente em templos, como desde sempre, com a supervisão dos sacerdotes. A coreografia é vigilantemente protegida e transmitida de geração em geração. Estas danças têm como objetivo, nada mais nada menos, o de preservar o universo. Ninguém pode acusar os balineses de não levarem a sério as suas danças. Nos anos 60, o turismo em massa chegou ao Bali. E os turistas ficaram inevitavelmente fascinados com as danças balinesas. Os balineses não têm problemas em mostrar a sua arte e recebiam os turistas nos templos para assistir às danças. Cobravam uma pequena soma por esse privilégio, os turistas pagavam, e toda a gente ficava feliz.

Como o interesse por esta forma de arte foi aumentando, contudo, os templos começaram a ficar lotados de espetadores. As coisas ficaram um tanto caóticas. E os templos não eram muito confortáveis, os turistas tinham de se sentar no chão, com as aranhas e a humidade. Então alguém teve a brilhante ideia de levar a dança até aos turistas, em vez do contrário. Não seria muito melhor e mais agradável, para os australianos tostados pelo sol, se pudessem, por exemplo, observar as danças na área da piscina de um resort, em vez de num templo húmido e escuro? E poderiam tomar um cocktail e apreciar o evento. E os bailarinos ganhariam mais uns trocos, pois haveria espaço para mais espetadores.

Então os balineses começaram a apresentar as suas danças em resorts, de forma a conseguirem aceder a todos os pedidos, e toda a gente estava feliz.

Na verdade, nem toda a gente estava feliz.

Os ocidentais com mais princípios na verdade estavam chocados. Isto era uma dessacralização do sublime! As danças eram sagradas! Uma arte santa! Não se pode apresentar arte sagrada no espaço profano de um resort, e por dinheiro, ainda por cima! Era uma abominação! Era uma prostituição espiritual, artística e cultural! Era sacrilégio!

Estes ocidentais mais piedosos partilharam as suas preocupações com os sacerdotes, que os ouviram atentamente, apesar da dura e implacável noção de “sacrilégio” não ser facilmente traduzível para o pensamento bali. O mesmo para as distinções entre sagrado e profano, que não são tão inequívocas como no ocidente. Os sacerdotes balineses não compreendiam inteiramente por que é que para esses ocidentais as praias do resort eram profanas (A divindade não residia ali, como em qualquer outro lugar no planeta?). Também não percebiam muito bem por que é que os simpáticos turistas australianos, em fatos de banho moldados ao corpo, não poderiam assistir às danças sagradas enquanto bebiam um mai tai (seriam essas amáveis pessoas não merecedoras de presenciar beleza?).

Mas os ocidentais com altos princípios estavam claramente transtornados com este estado de coisas e os balineses não gostam mesmo nada de preocupar os seus visitantes, por isso decidiram resolver o problema.

Os sacerdotes e os mestres de dança reuniram-se e saíram-se com uma ideia inspirada – uma ideia inspirada por uma maravilhosa ética de leveza e confiança. Decidiram que iriam criar novas danças, não sagradas, e apresentariam aos turistas nos resorts apenas estas danças certificadamente livres de divindade. As danças sagradas voltariam aos templos e seriam reservadas apenas para as cerimónias religiosas.

E foi assim que fizeram, facilmente, sem drama nem trauma. Adaptando gestos e passos das antigas danças, delinearam o que seriam essencialmente danças sem sentido, e iniciaram espetáculos com estes movimentos fúteis para turista ver. E toda a gente estava feliz, pois os bailarinos dançavam, os turistas eram entretidos, e os padres ganhavam algum dinheiro para os templos. E ainda mais, os ocidentais de grandes princípios podiam agora relaxar, pois a distinção entre sagrado e profano tinha sido devidamente reestabelecida.

Tudo estava no seu lugar – arrumadinho e final.

Excepto que nem tudo estava arrumadinho e não era final.

Pois nada fica realmente arrumadinho e final.

A questão é, nos anos seguintes, esses novos movimentos sem sentido tornaram-se cada vez mais refinados. Com um novo sentido de libertação e inovação, os jovens transformaram gradualmente os espetáculos em algo de magnífico. Na verdade, as danças tornaram-se transcendentes. Apesar de todos os esforços para não serem espirituais, os bailarinos balineses inadvertidamente chamavam a grande magia dos céus. Ali, ao lado da piscina. Só queriam entreter turistas e divertirem-se, mas agora viajavam até Deus em cada atuação, e toda a gente o sentia. Poder-se-ia mesmo dizer que as novas danças eram mais sagradas que as bafientas danças antigas.

E os sacerdotes balineses, ao verificarem este fenómeno, tiveram uma ideia brilhante: porque não usar estas danças falsas, trazê-las para os templos, incorporá-las nas antigas cerimónias religiosas e usá-las como uma forma de oração? Na verdade, porque não substituir algumas das danças antigas e esclerosadas por estas novas danças falsas? E assim fizeram.

E assim as novas danças sem sentido tornaram-se danças sagradas, pois as danças sagradas perderam o sentido.

E toda a gente estava feliz – excepto os ocidentais com altos princípios, que agora estão confusos pois não sabem discernir o que é sagrado e o que é profano. Tudo se misturou. As linhas entre alto e baixo, leve e pesado, entre certo e errado, entre nós e eles, entre Deus e terra, tornaram-se difusas… e o paradoxo estava a mexer com eles.

O que não posso deixar de pensar, era o que os sacerdotes visavam desde o início!”

 

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