O Dharma num desenho

No início dos anos 70 Chögyam Trungpa Rinpoche foi convidado para ministrar um curso sobre budismo numa universidade americana no Colorado.

Os Estados Unidos estavam em plena revolução contracultural, com protestos contra a Guerra do Vietname ao mesmo tempo que entrava em contato com religiões orientais da Índia, Tibete, Sudeste da Ásia e Japão. Falava-se de Maharishi, escutavam-se os Beatles, seguia-se Yogi Bhajan, Zen, dietas macrobióticas, encontravam-se Hare Krishnas em qualquer esquina ou aeroporto, praticava-se yoga e meditação e energia kundalini e tudo o mais. Rinpoche apresentou a doutrina budista básica, com ênfase no ensinamento sobre “materialismo espiritual”, que ele sentia que era particularmente relevante para a época. Mas naquela universidade os alunos seguiam as aulas de uma forma mais ou menos apática e aparentemente desinteressada (na verdade alguns deles tornaram-se posteriormente alunos devotados de Rinpoche).

Mas uma aula inesquecível, foi a que Rinpoche deu sobre  trikaya, o termo em sânscrito que se refere aos três (tri) corpos (kaya) de um Buda: o  dharmakaya, o sambhogakaya e o  nirmanakaya, que devem ser compreendidos em diversos níveis.

Da maneira mais básica, o termo  nirmanakaya refere-se à própria manifestação física e mental do Buda Shakyamuni, assim como a de outros indivíduos iluminados. Nirmana geralmente é traduzido como “manifestação” ou “aparição”.

Dharmakaya, refere-se ao corpo de “ensinamentos” do Buda: as instruções que ele deu a seus alunos para ajudá-los a ver o que é real e trilhar o caminho. Além disso, refere-se à capacidade do Buda de agir de acordo com o que é verdadeiro e real.

Sambhogakaya, um termo que surgiu num período mais recente da história budista, geralmente é traduzido como “corpo de fruição” de um Buda. Ele refere-se à ideia de que um mundo de seres, personificações de energia, iluminada ou não, está presente aqui e agora. É um mundo de beleza, poder e significado e está totalmente disponível a indivíduos que deixaram a confusão e a ignorância para trás.

Mas há outra maneira mais subtil de entender o trikaya e foi essa compreensão que Trungpa Rinpoche ensinou naquele dia de inverno de 1971. Foi assim que ele fez.

Andando até o quadro-negro, ele pegou um pedaço de giz e fez este desenho:

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Então, ele afastou-se e perguntou: “Isso é um desenho de quê?” Claro que ninguém queria dizer o óbvio e houve um silêncio prolongado até que um colega finalmente levantou a mão e disse “É o desenho de um pássaro”.

Rinpoche respondeu “É o desenho do céu” e com essas palavras ele ensinou todo o trikaya.

Rinpoche simplesmente apresentou a descrição budista mais profunda da realidade como ela surge no aqui e agora.

O passado e o futuro são construções mentais. Até mesmo o presente pode ser conceptualizado, mas também pode ser vivenciado. Na verdade, vivenciamos o presente todo o tempo, sem termos escolha. É meramente uma questão de emergirmos de nossos sonhos sobre o passado, o presente e o futuro tempo suficiente para perceber e ver de maneira clara e verdadeira.

No presente, os seis tipos de fenómenos – visão, sons, cheiros, gostos, sensações táteis e eventos mentais – surgem e passam, uma exibição em constante surgimento e extinção, como num filme. Essas “coisas” não duram nem por um instante no momento presente; viramos a cabeça, a nossa atenção muda de foco, a luz muda e as coisas movem-se, a exibição está em movimento constante, transformando-se tão completa e continuamente que não conseguimos nem mesmo apontar algo  que mudou. É um “presenciamento” contínuo. E essa exibição tem três aspetos.

Primeiro, o aspeto dharmakaya. Todos os fenómenos parecem surgir de e desaparecer no nada. Para onde aquele som foi? Aquela experiência visual precisa? Aquele pensamento? Aquele odor? Eles surgiram do nada, apareceram no meio de uma matriz de condições, e, finalmente, desapareceram no nada. Esse “nada” fértil, é, nessa primeira acepção da definição, um dos significados de dharmakaya: a realidade absoluta, o “útero” do qual todas as aparências surgem e o cemitério a céu aberto dentro do qual elas se dissolvem.

E ainda assim,  algo parece aparecer e se dissolver. Esse aspecto de “algo” é o nirmanakaya. Há um “presenciamento” dos fenómenos. Esse presenciamento é o fato da aparência aparecer, a “coisitude” das aparências e é tudo o que os seres sencientes confusos (nós!) conhecem, pois eles não estão a prestar atenção ao momento presente, não estão a notar que nada existe realmente como eles pensam que existe.

Habitualmente vemos o mundo fenomenológico através do véu do pensamento estático: vemos um amigo ou ouvimos uma música e ficamos consumidos com um sentido linear do tempo, um passado e um futuro; enquanto acreditarmos que outras coisas e eu existem, a vida é vivenciada como uma série de relações eu-outro problemáticas. Se o outro nos é antipático, nos causa dor e infelicidade, então queremos empurrá-lo para longe e vem o ódio. Se o outro promete prazer, felicidade, segurança e tudo o mais, então desejamos puxá-lo para perto de nós e vem o desejo. E se o outro não promete benefício nem dano, então não nos importamos com ele, é a indiferença.

O nirmanakaya é um aspecto do presenciamento e é descrito como a exibição de compaixão, pois ele pode comunicar-se connosco na forma de um professor (um ser humano ou simplesmente experiências de vida que nos fazem avançar no caminho).

E finalmente há o shambhogakaya, o aspecto no qual, à medida em que essas “coisas” surgem e passam, elas nos comunicam onde estão: a vermelhidão do vermelho, a doçura do açúcar, o frio do gelo, a tristeza do pesar. É precisamente porque todos os fenómenos surgem do nada e voltam para o nada, porque eles são totalmente transitórios, que eles podem e devem expressar as suas qualidades, de maneira tão vivida e bela e significativa. Isso é o sambhogakaya e ele é o reino da magia: não magia no sentido de atravessar paredes e ler mentes mas no sentido da beleza e significado extraordinários e no valor deste mundo visto cruamente, despido de todos os pensamentos/sonhos auto-centrados e saturados de emoções através dos quais vemos as nossas vidas. O sambhogakaya é o mundo sagrado. No mundo confuso as coisas são de maior ou menor valor de acordo com o que elas podem fazer para ou por mim. No mundo sagrado as coisas têm valor por nenhuma razão em particular; esta vida tem um valor intrínseco.

E por isso, visto no momento presente, um pássaro é totalmente insubstancial: uma apresentação em mudança constante, um presenciamento da base de nada, surgindo na existência e passando tão totalmente a cada instante que não conseguimos nem mesmo encontrar “algo” que surge na existência ou passa. Na verdade, não podemos nem mesmo distinguir entre o pássaro e o nada (simbolizado aqui pelo céu) que é seu útero e seu túmulo. Então, quando Trungpa Rinpoche disse ter feito um desenho do céu, há duas maneiras de entender sua afirmação.

Primeiro: que estamos tão concentrados na coisa que não prestamos atenção no fundo (temporal e espacial) do qual ela surge. Olhe! O pássaro também é um desenho do céu! Perdidos em conceitos, vimos o mundo através do véu do pensamento discursivos,  ignoramos a base da qual os fenómenos surgem e onde eles desaparecem. Este é um significado da palavra em sânscrito avidya  (geralmente traduzida como “ignorância”), o erro fundamental que produz “não-iluminação” ou confusão. Trungpa Rinpoche disse que  avidya significa “ignorar” ou não ver (o significado literal de a-vidya) a base, focando apenas no desenho e no seu significado a meu favor ou contra mim.

Segundo: o pássaro e o céu parecem diferentes, mas não conseguimos achar a linha divisória entre eles. Eles criam-se mutuamente e são um e outro. O pássaro, enquanto se move no céu, é meramente uma recoloração do céu num número infinito de lugares. A diferença entre eles é só aparente, como uma imagem num espelho. Nos ensinamentos tântricos, a palavra céu muitas vezes é um código para e intercambiável com “espaço”, o que significa a unidade dos três kayas.

Na prática do budismo tibetano muitas vezes recita-se esta fórmula: “As coisas surgem, no entanto, não existem; elas não existem, no entanto, surgem!”

Finalmente e sempre, os três kayas são apenas diferentes aspetos da mesma coisa, que é o que se quer dizer nos textos quando encontramos a afirmação de que os três kayas são um. O nirmanakaya e o sambhogakaya, frequentemente combinados e chamados de  rupakaya ou “corpo de forma do Buda” estão unidos com o dharmakaya, o corpo absoluto, do qual – no momento presente, aqui e agora – tudo parece surgir e passar.

As coisas surgem e se dissolvem de volta no nada: dharmakaya. As coisas surgem e se dissolvem de volta no nada: nirmanakaya. E enquanto essas coisas surgem e se dissolvem, elas comunicam a sua individualidade brilhante, comovente: sambhogakaya.

Para citar uma frase da  Sadhana do Mahamudra de Rinpoche, “Bons e maus, felizes e tristes, todos os pensamentos desaparecem no vazio como a impressão de um pássaro no céu”.

É um desenho do céu.

Texto de John J. Baker na Revista Tricycle, “muito” adaptado por Margarida Cardoso, por necesidade de síntese, e para, esperemos, uma melhor compreensão.

John J. Baker, um aluno próximo de Chögyam Trungpa Rinpoche (1939– 1987), é o co-editor de Cutting Through Spiritual Materialism (Penetrando o Materialismo Espiritual) e  The Myth of Freedom (O Mito da Liberdade). Co-fundador da Universidade Naropa e ex-CEO e membro do corpo docente, ele é  professor sénior no New York Shambhala Center e no Westchester Buddhist Center, do qual também é co-fundador.

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